O poder da escrita

Escrever é muito importante em qualquer processo de cura. Em algum post anterior, comentei sobre meu hábito, quando adolescente, de manter diários, que fazia com agendas, enchendo-as de quinquilharias que me ajudavam a gravar certos dias na memória: um papel de bala, um palito de sorvete, um recorte de revista…

Acho que eu já estava dando sinais de que gostava de trabalhar na área gráfica porque amava dedicar horas para ficar enfeitando minhas páginas. Meu pai via minhas agendas cheias de clips e coisas penduradas e dizia que um dia eu iria encontrá-la cheia de baratas rs.

O caso é que essa minha relação com a escrita é antiga. Minha lembrança mais antiga relacionada a isso é de um dia que estava na casa da minha falecida bisavó, que tinha um jardim imenso, e eu estava apoiada no muro, com papel e lápis, olhando para um dos pés de hortências que ela tinha plantado, já muito florido, e escrevendo um poema sobre elas e sobre rosas.

Era algo como uma conversa entre as duas, em que a hortência meio que se gabava para a rosa do quanto ela era bonita e de como a rosa, apesar de bonita também, tinha espinhos que feriam as pessoas. Não lembro exatamente das palavras, mas a lembrança desse momento ainda me é muito nítida. Estava sol, um calor gostoso, e o quintal cheio de flores, pés de frutas carregados e legumes e hortaliças sempre prontos pra gente colher e comer. Acho que não tinha 10 anos de idade…

Sempre achei que o ato de escrever é muito íntimo, um afago que faço em mim, um meio de concretizar meus sentimentos e ver uma pessoa nascer ali, no papel. E no papel é mesmo bem melhor do que no computador, porque tem a letra, a tinta, as rasuras, a gordura da mão que impregna a folha. Rever tudo isso dias, meses ou anos depois é como achar pequenos tesouros sob a terra sem ter nenhum mapa.

Dias que ficaram perdidos no subconsciente vêm à tona só da gente olhar aquela letra P feita com capricho, ou aqueles dois S que saíram amarfanhados e a gente lembra como era difícil deles ficarem legíveis.

Mas além do aspecto físico da escrita, que refresca lembranças, poder ver a nossa escolha de palavras e pronomes e palavrões numa mesma frase faz com que todos os sentimentos daquela ocasião venham até nós novamente, e aí eles chegam sob uma camada de contemplação, como se estivéssemos orgulhosos daquela pessoa ali, que atravessou tanta coisa com bravura, que bateu tanto a cabeça e que achava tudo tão intenso.

Depois que essa época passou, a das agendas, eu quis marcar minha passagem da adolescência para a juventude. Meu termômetro do crescimento foi o meu desinteresse pela continuidade dos diários. Então um dia eu queimei todos, conscientemente desejando que tudo aquilo que foi escrito voltasse carinhosamente para o universo, como um ciclo finalizado.

Agora fazem exatos 20 anos dessa passagem. Quanta coisa eu deixei acontecer sem registrar, talvez para sentir na pele o que era ser adulta e deixar que todas as marcas fossem entrando em mim. Sempre fui assim, de querer sentir tudo, ser ávida por experimentar e saborear todas as sensações que apareciam no meu caminho.

Por piores que tenham sido certas vivências, eu lembro de meio que tirar uma foto de cada sentimento intenso e novo que aparecia: medo, paz, pesar, agonia, ciúme, felicidade, prazer… acho que a imagem mais próxima que faço disso é do garotinho do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate, quando prova um doce pela primeira vez, e depois passa a anotar no seu caderninho todas os os gostos e sensações que o açúcar lhe proporcionava.

Faço isso com as emoções que me aparecem, todas elas. Fico mastigando várias vezes cada uma. Mas nesses últimos 20 anos não me lembro de ter escrito qualquer dessas impressões e análises pessoais. E acho que, como um novo ciclo de vida está terminando (os 38 anos estão chegando), estou com saudades desses registros.

Recomendo muito que você tente também fazer um diário secreto. Secreto porque é pra ser um refúgio só seu, onde você se encontra consigo mesmo, longe dos julgamentos alheios, da guerra de egos e da busca por aprovação que viraram as redes sociais. Não. Faça do caderno a sua rede de conexão com seu mais íntimo ser, sem pudor de escrever os pensamentos e sentimentos que você não teria coragem de dizer pra ninguém, e que muitas vezes esconde até de si mesmo.

Porque todo mundo tem aquelas ruas sem saídas na mente, em que a gente joga um pensamento, um julgamento, uma mania, e eles ficam lá, crescendo ou pegando poeira, a gente que decide. Faça isso. Se não todos os dias, pelo menos 2 vezes por semana.

É incrível colocar nossa mente no papel. Nesse processo, sem perceber, acabamos curamos algumas feridas, porque conforme deixamos as palavras fluírem da maneira que vêm à mente, sem ficar escolhendo muito o melhor sinônimo, a colocação ideal da vírgula e a concordância verbal correta, é que vamos organizando os pensamentos e compreendendo as emoções.

Nesse processo, é muito normal que algumas lembranças antigas venham à tona. Quando comentei lá no início sobre o poema das flores que escrevi quando criança, antes de começar a escrever eu não lembrava que tinha a hortência na história! Foi só falar do muro, escrever que estava com papel e caneta na mão observando as flores… que veio a imagem da tal hortência. É mágico!

O bom de escrevermos para nós mesmos é que não precisamos ter sempre uma história inédita e nova pra contar. Basta começar com algo como “aqui estou eu de novo, na mesma”. Logo fluem as palavras para explicar o que é essa sensação de tudo na mesma, sem novidades. As histórias não cessam dentro de nós, e devemos querer usar isso para nosso autoconhecimento.

Talvez eu tenha levado a escrita a um nível um tanto quanto patológico. Se não estou escrevendo a trabalho, estou fazendo listas. E nada, absolutamente nada na vida, me dá mais prazer do que riscar um item feito de uma lista. Faço lista de coisas que tenho que fazer no dia, lista de coisas a comprar no mercado, lista dos atores de comédia que mais gosto, lista dos filmes que preciso assistir…

Talvez eu tenha um pouco de TOC também, mas gosto de como ele está agora. Escrever é mesmo uma delícia e pode começar pelas listas. Outro dia fiz uma lista de mercado e, depois de batata, cenoura, papel toalha e sabão em pó, escrevi “melado de cana” e, ao lado, escrevi “podia nadar numa piscina de melado”.

Só fui ao mercado dois dias depois, e não tinha lembrado que escrevi a parte da piscina. Quando li, ri (sozinha, já no mercado). Pensei “como sou idiota”. E ri de novo. Uma piada interna, de mim para mim mesma, alegrando meu dia. É besta? É, mas é ótimo. Nem tudo o que a gente faz precisa ser para os outros, no sentido de sermos engraçados ou odiosos. O papel, sendo nosso melhor amigo, nos ajuda a nos colocar de frente para nós, como um espelho moral, e apontar o que é bom e o que não é.

Mas não será alguém de fora, que mal nos conhece, ou que acha que conhece, ou que gostamos que conheça, que dirá essas coisas. Sou eu dizendo coisas que, dias depois, vou ler e gostar ou não. Se não gostar, posso refletir e escrever mais sobre isso, sobre o incômodo, a reação.

Por causa desse hábito, aprendi a gostar também de livros que falam sobre a escrita. Dois que li e amo são Sobre a Escrita, do Stephen King, e Zen e a arte da escrita, do Ray Bradbury.

Só preciso praticar mais a caligrafia porque as coisas que ando escrevendo no bullet journal de afazeres estão difíceis de entender.

Por hoje, é só!

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