O propósito disso

A vida anda complicada. Muita gente anda sentindo isso também. A pressa do dia-a-dia, tudo é feito correndo, com horários apertados, com emails a serem respondidos, mensagens esperando no WhastApp…

A gente vai priorizando resolver tudo o que está externo – trabalho, banco, mercado, pet shop, cursos – e o que está interno vai mesmo ficando cada vez mais interiorizado, miúdo, apertado, escondido.

Mas tem uma hora que não cabe mais. De tanto comprimir sentimentos dentro de uma pequena caixinha dentro de nós, a pressão aumenta e começa a rachar essa caixinha com as coisas escorrendo pelas frestas.

É aí que, para cada pessoa, esses vazamentos se manifestam de maneiras diferentes: pânico, depressão, ansiedade, burnout, gastrite, arritmia, dermatites… mais cedo ou mais tarde nosso corpo e mente nos cobram de todos os excessos que estamos descontando neles.

Atualmente, moro na cidade de São Paulo, capital mundial da correria. A gente dorme com o barulho do caminhão que está asfaltando a rua do lado e acorda com o barulho das máquinas da construção de novos prédios do entorno – fora o ruído do trânsito.

Alguns problemas na família também me puseram pra refletir sobre o que realmente é importante, para quê precisamos viver e a que e quem vale a pena nos doarmos.

Quando passo por essas situações de esgotamento, de fichar de saco cheio das opressões da máquina pública e dos efeitos colaterais do capitalismo, eu tenho ímpetos de limpeza geral. É quando eu sinto necessidade de limpar o guarda-roupas, de comer mais saudável, de doar o que está parado.

Mas teve um momento que isso também saturou. Não adianta eu fazer essas limpezas e depois “sujar” tudo de novo. Então eu resolvi adotar essa vida limpa como hábito, tentando introjetar as práticas de limpeza e retidão como parte da vida, não como momentos de alívio ou válvulas de escape.

Num primeiro instante, isso significa me livrar das coisas estagnadas em casa, que eu não uso há mais de um ano, e adotar de vez a dieta plant based. Essas duas mudanças são difíceis para mim por questões de conveniência e preguiça, que é algo que também preciso vencer.

O mais difícil é encontrar e aceitar o equilíbrio. Eu tendo a não valorizar os esforços que faço ou fiz quando há derrapadas no processo. Por exemplo: se eu enfio na cabeça que preciso ir à academia de segunda a sexta, mas vou só segunda, quarta e sexta, acho que não “valeu” e desisto.

Essa é outra coisa que preciso compreender e aceitar melhor em mim, porque não dá pra levar uma vida de 8 ou 80, isso não é saudável e nem sustentável (no sentido de conseguir sustentar por muito tempo).

Formalizando em palavras, eu preciso de um estilo de vida minimalista para não me desviar do que é importante, senão, eu desconto frustrações, ansiedade e preocupação em comida e compras, acabando com meu cartão de crédito e com minha autoestima.

Esse blog vai ser a minha terapia. Sempre gostei de escrever, desde que me entendo por gente. Lembro que, quando criança, eu dizia que seria escritora, e talvez seja chegado o momento. Não com um objetivo comercial, mas terapêutico. Tem coisas que é mais fácil escrever do que falar, e se tiver mais gente passando pelas mesmas questões por aí, isso pode alcançar essas pessoas e mostrar que não estão sozinhas nessas angústias.

Bom, como pra tudo eu preciso de processos e procedimentos, sinto necessidade de anotar causas, efeitos, objetivos, motivos etc. Não acho ruim esse traço da minha personalidade. Na verdade, talvez isso é o que tem ajudado a manter-me sã esse tempo todo.

Não quero passar a impressão de que estou desmoronando por dentro, porque acho que estou um pouco longe disso. É que quando algo me incomoda, meu senso prático já fica buscando os meios de resolver e eliminar o problema.

Voltando ao assunto de simplificar a vida, meus principais motivos para fazer isso são:

Não sou organizada

Apesar de virginiana, não sou muito organizada com minha vida pessoal, então não tenho uma rotina precisa de como e quando fazer as coisas. Quando me dá um estalo, começo a fazer o que acho que é necessário naquele momento. Ter menos coisas e, logo, menos coisas pra arrumar, ajuda bastante nisso.

Não disponho de muito espaço em casa

Moro em um apartamento de 56m2 e estou casada, então divido estes parcos metros quadrados com uma pessoa que está perto de ser acumuladora – quando namorávamos, descobri que ele guardava sacolas e papeis de presente de toda vida embaixo do colchão.

Tenho 4 gatos

Até acho bonito algumas decorações cheias de coisas, que misturam caixas e enfeites e livros na mesma prateleira, que agrupam coleções de muitos objetinhos em um móvel e que deixam todos os utensílios de cozinha à vista nos armários, mas na minha casa isso não funciona. Parece muito bom na casa dos outros, mas se eu quisesse ter isso na minha própria casa, teria que ser 259 vezes mais organizada para conseguir manter tudo no lugar e limpo. Ter 4 gatos aumenta o grau de dificuldade disso, com todos correndo pela casa e por sobre os móveis e deixando pêlos até em locais que eu nem sabia existirem.

Gosto de ver espaços vazios

Sou designer. E em design, existe uma regra básica que diz que espaços vazios são muito importantes em uma composição. Eles trazem equilíbrio e harmonia ao conjunto, criando algo agradável de se ver. Naquela história de eu ser 8 ou 80, sinto necessidade de trazer esse conceito para o ambiente em que vivo, criando mais áreas vazias que deixam a impressão de um ambiente maior e mais arejado.

Minha casa é meu local de descanso, e quanto menos coisas à vista para me gritar que preciso organizá-las e limpá-las, melhor. Recentemente descobri que tenho déficit de atenção (sem hiperatividade), o que quer dizer que minha mente voa pra longe com coisas que me distraiam do foco. Ter menos coisas no ambiente reduz essa ansiedade de ficar pensando em tudo ao mesmo tempo.

Gosto de praticidade na vida

A verdade é que sou preguiçosa. Não gosto de fazer faxina nem de perder tempo com alguma atividade que sei que poderia ser mais rápida de ser concluída, especialmente quando isso depende da boa vontade de pessoas e organizações.

Por exemplo: há algum tempo, perdi meu bilhete único e precisava ir a um posto da SPTrans solicitar a segunda via. O posto mais próximo a mim é o mais lotado da região, e esperei um dia que estivesse mais tranquila no trabalho para poder ir e ficar o tempo que precisasse na fila.

Fui no dia 8 de julho, uma segunda-feira, véspera de um feriado estadual. Pois o posto estava fechado. Um dia útil, que muita gente tinha tirado pra resolver a vida, e esse sistema público burocrático não colabora.

Pode parecer uma besteira, mas eu fiquei tão incomodada com isso, porque quantas outras coisas não poderiam ser mais ágeis e fáceis de serem resolvidas, deixando mais prática a vida das pessoas?

Então eu resolvi que, onde eu tenha controle, onde eu tenha autonomia pra resolver e organizar, eu vou fazê-lo. Se as máquinas públicas e privadas nos agridem diariamente com suas peculiaridades ridículas, vou fazer de tudo para que eu possa manter um santuário de paz interna.

E esse blog vai me ajudar a documentar esse processo, para que eu tenha algo concreto onde conferir meu progresso e diminuir essa coisa dos extremos, entendendo que a jornada é tão ou mais importante do que o ponto de chegada.

Vamo que vamo.

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